Você já se perguntou por que escolhemos fotos bem específicas para publicar em nosso Facebook? Por que chegamos a desmarcar uma foto em que alguém nos marcou simplesmente porque ela é antiga?

Por que algumas pessoas escolhem minuciosamente só fotos formais, ou apenas informais, ou simplesmente em festas exibindo bebidas, ou até somente aquelas que reforcem a religiosidade? Seja nas redes sociais da internet ou nas redes social offline, somos um ser em construção e adaptação da imagem que queremos passar. Veja um pouco mais sobre essa discussão e talvez sobre como pensar em tal característica dentro do seu trabalho na internet.

Somos a mesma pessoa, mas não com a mesma identidade em todos os ambientes que andamos. Assim falava o cientista social Erving Goffman, que acreditava sermos seres com múltiplas personalidades, cada uma para o cenário que nos conviesse naquele momento.

Dentro do Facebook ou de alguns outros sites de rede sociail, temos a função de publicar fotografias. O que vemos é que tal função acaba usada como um reforço da identidade social que construímos para nós mesmos, dentro daquele ambiente específico. Essa identidade social não necessariamente somos nós mesmos por completo, mas uma representação de nós dentro daquele certo ambiente.

Essa é uma prática que, obviamente, vem de muito antes do Facebook. Para se inserirem em grupos sociais, muitos indivíduos passam por uma adaptação de linguagem, roupa, comportamento, hábitos de consumo, dentre outras características. A formação de tribos é vista como um agrupamento de indivíduos com visões convergentes sobre determinados pontos. Como a formação dessas tais tribos são encontradas há séculos no mundo, a diferença que o Facebook gerou na formação dessas tribos foi ser um site de rede social que, dentre várias outras características, potencializou:

  • a velocidade de formação dessas tribos;
  • o volume de indivíduos agrupados; e
  • a quantidade de recursos disponíveis para afirmação das identidades sociais apresentadas.

Quando falei que as tribos são agrupamentos de indivíduos com visões convergentes sobre determinados pontos, quis frisar também que tais visões convergentes não são necessariamente sobre tudo. Ou seja, um mesmo indivíduo pode ter visões convergentes com uma tribo específica em um dado ambiente, com outra tribo em um outro ambiente e com quantas tribos forem seus tipos de visões e ambientes diferentes. Posso gostar de futebol e me agrupar com uma tribo relacionada. Depois do futebol, vou à igreja e lá me agrupo com outra tribo. Dessa forma, tenho uma personalidade junto aos amigos de futebol que eu não teria junto aos amigos de igreja. Isso nos remete novamente ao pensamento de Goffman, que afirma fazermos parte de um teatro social, em que trabalhamos a ‘representação do Eu‘ como atores sociais, sobre o palco e a peça que nós mesmos escolhemos [através das várias formas de relação do Eu com o Outro, incluindo a relação de poder social, psicológico e econômico). Isso é possível no mundo da internet porque o ciberespaço permite que mantenhamos nossas múltiplas personalidades. Como afirma Pierre LevyAndré Lemos, o ciberespaço é universal, mas não total, pois preserva a variedade de sentidos, possui todas as vantagens de virtualização e volume de dados e comportamentos, mas não alcança a totalidade das possibilidades humanas. Se juntarmos às ideias de Goffman e ao pensamento sobre o Facebook, podemos dizer que as fotografias publicadas são a Representação do Eu porque, dentro de um site de rede social, não é possível conter toda a complexidade humana, assim como também afirma Raquel Recuero.

Se na vida cotidiana, já somos um ator social no trabalho, outro na família, um terceiro no futebol do fim de semana, um quarto na igreja e até um quinto com os amigos de infância, no Facebook não é diferente. O Facebook, assim, apresenta-se como um novo espaço de sociabilidade, em que uma identidade social específica e adequada a ele pode ser construída e reforçada. É por isso que poderemos ser de uma forma no Facebook, de outra no Twitter, de uma terceira no Instagram e de quantas outras forem nossas possibilidades de múltiplas personalidades.

Raque Recuero explica que a imagem que passamos em um site de rede social, como o Facebook, serve-nos como nossa identificação online. Ali, essa identificação seria composta pela soma de características interessantes de um determinado ator (e vistas como positivas). Além disso, tais características, para compor a identificação, deveriam ser coerentes com sua narrativa identitária dentro do site de rede social. Ou seja, se meu desejo é criar uma identidade de boêmio, desde as fotos que publico até os textos que posto devem seguir uma linguagem, coerente à esta identidade que escolhi. A fuga dessa identidade, com publicações incoerentes a este perfil, não reforçariam a personalidade que o ator das fotografias escolheu para aquele ambiente. Como a identidade se constroi na relação com o outro, tal publicação “incoerente” não passaria a credibilidade de boêmio para aquele público almejado e, portanto, não atingiria o reforço da identidade ali exibida. Esse público é provavelmente composto pelo membros da tribo que esse ator deseja se inserir ou ter sua presença reforçada. Há também a possibilidade de esse ator querer sua imagem reforçada junto a outras pessoas que não fazem parte de sua tribo, talvez numa tentativa de afirmar sua diferenciação perante a socidade. É o caso de alguns jovens com a necessidade de afirmação de uma identidade social.

Quando falo que o Facebook facilita a afirmação dessas identidades criadas, refiro-me sobre as várias possibilidade de interação que seus amigos ou seguidores podem ter com você. Por exemplo, uma foto publicada com muito cuidado para passar exatamente uma imagem profissional (alguém de paletó, em reunião, em conversa formal etc.), pode ser curtida, comentada ou compartilhada inúmeras vezes, indo muito mais longe do que se estivesse restrita ao mundo não online. Isso quer dizer que cada uma dessas possibilidade de interação é uma maneira de reforçar uma personalidade criada através de fotografias. Por exemplo, se seus amigos do Facebook curtem ou comentam positivamente sobre sua foto de paletó em reunião, eles reforçam para várias outras pessoas que você sequer conhece aquela imagem profissional quis passar.

Diante desse campo propício à construção de múltiplas identidades e com várias possibilidades de reforçamento por membros da tribo, o que vemos é uma proliferação de usuários do Facebook criando em seus perfis verdadeiras representações do eu, com identidades sociais que seguem um propósito daquele indivíduo dentro do ambiente online, onde também estão diversos membros da tribo a que ele se relaciona naquele momento, até mudar para outra poucos minutos depois.

O perigo talvez não percebido por muitos desses indivíduos é que, diferente do meio online, a internet possibilita a pulverização de informações de uma maneira descontrolada. Além disso, muitas vezes registra e chancela uma determinada identidade social formada, o que mais à frente talvez o ator da identidade quisesse que fosse excluído da história.

Essa conversa sobre múltiplas personalidades e identidades sociais dentro do Facebook nos leva a uma outra discussão: um comportamento chamado FOMO – “Fear Of Missing Out” ou medo de perder algo. O FOMO é fruto do comportamento chamado “clique para atualizar“. Portanto, se você cria múltiplas identidades e mantém a necessidade de reforçá-las e de se atualizar sobre as identidades dos outros membros da tribo, como atores sociais que são, cuidado com seu nível de FOMO. Mas essa é uma conversa para um outro post. Boa reflexão!

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(@wgabriel1)
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